segunda-feira, 1 de junho de 2009

Postagem da Elismara Zaias sobre a Discriminação racial nas escolas


SILVA Jr., H. Discriminação racial nas escolas: entre a lei e as práticas sociais. Brasília: Unesco, 2002.

Refletindo sobre a obra de Hédio Silva Júnior: “Discriminação racial nas escolas: entre a lei e as práticas sociais”, podemos perceber a importância desse ensaio para as discussões da questão racial no espaço escolar.
No decorrer do texto o autor aponta alguns possíveis fatores macrossociais que poderiam interferir e excluir a criança negra da igualdade de oportunidades (mesmo tendo frequentado por um longo período o ambiente escolar), tais como: a) democratização do ensino que priorizou a quantidade em detrimento da qualidade, falta de uma estrutura adequada e falha formação do professorado; b) evasão escolar acentuada do negro. Em virtude disso, pensam-se na política de ciclos na modalidade de progressão continuada (sem reprovação), o que não garantiu um ensino de qualidade, causando um descontentamento por parte de pais, professores e alunos; c) atitudes preconceituosas e práticas discriminatórias na inclusão de crianças com problemas de aprendizagem em classes regulares, e a suposição equivocada de que as crianças negras têm menos inteligência que as demais.
O pesquisador faz uma crítica aos PCNs por tratarem os temas transversais (pluralidade cultural, por exemplo) como um aspecto que deve “atravessar” as disciplinas. Em virtude disso, abre-se a possibilidade da escola trabalhar como algo alternativo e não fundamental.
Ao tratar sobre o livro didático, o autor o reconhece como meio de veiculação de racismo, tanto por meio do discurso como pelas imagens. Destaca as possibilidades e dificuldades da inclusão de conteúdos que tratem sobre o negro para o estudo na escola, como por exemplo, a inclusão da história da África. Ressalta que a sistemática negação e a visão estereotipada dos negros é um dos mecanismos mais violentos vividos na escola e um dos fatores que mais contribuem para a eliminação da criança negra.

Cabe pensarmos até que ponto a escola está cumprindo seu papel como instância educativa na qual respeita e preserva a diversidade cultural. Falamos tanto que os professores não estão preparados para lidar com as crianças com necessidades especiais, que não têm formação, aí com a criança negra é a mesma coisa? Não se sabe trabalhar com alguém que tenha a pele diferente do branco? Culpabilizamos nosso “preconceito” com chavões de que não estamos preparados? Que tipo de cidadãos estamos formando nos bancos escolares?
Vivemos em uma sociedade em que o discurso ao respeito à diversidade sempre está presente, porém na prática o que observamos são mecanismos de exclusão da pele negra impedindo-a de possuir respeito e dignidade como cidadão. Sabemos que isso é uma questão histórica de preconceito e classificação de “menor status” do negro, que carrega resquícios até hoje. O que falta é proporcionar visibilidade e criar mecanismos notórios com relação à estas questões, para que a escola não se torne um meio de disseminação do preconceito, mas sim uma forma de superá-lo.

5 comentários:

L.F.Cerri disse...

Elismara, a postagem sobre "o menino do cavaquinho" ajuda a responder sua pergunta. O professor em geral tem medo de falar na questão racial em sala de aula, ou no mínimo sente-se desconfortável com isso. Pensa que ao falar o próprio termo "negro", vai ofender os alunos negros. Eu mesmo já me senti assim e tive que fazer um esforço para superar isso.
Quando o professor visualiza uma situação de discriminação e se cala, ele (como representante dos adultos e do Estado no microcosmo que é a sala de aula) colabora para que o discriminador sinta-se autorizado, e para que o discriminado perceba que nunca terá apoio para resistir à discriminação. Então, sim, a grande maioria dos professores não está preparada para lidar com isso, porque não fez a auto-análise do racismo em si mesmo, e não se preparou para lidar com as situações de racismo em sua sala de aula ou em sua escola. Parar de achar graça em piadas preconceituosas já seria um grande começo, e - todos nós - tentemos para ver se é fácil!!!

Letícia disse...

A colega Elismara foi bem clara em relação à função social da escola.Para que o princípio do respeito e preservação da identidade cultural se efetive,deve estar previsto no projeto político pedagógico das escolas, no currículo dos cursos,fazendo parte das reuniões pedagógicas que podem (e devem) trabalhar com os professores os aspectos culturais (de formação da nossa sociedade),legais,econômicos e políticos em um processo de formação continuada contínuo.
O senso comum é que temos teoria e não temos prática.Problematizo: será que não possuímos uma prática efetiva porque na verdade a nossa teoria não está sendo conduzida adequadamente nas escolas? Será que a escola tem pensado coletivamente em assumir sua função social? Parece que o problema se encontra na teoria(não assumida); a falta de prática demonstra isto.

Unknown disse...

A partir das reflexões da Elismara, gostaria de discutir uma das colocações: a política de ciclos, já que essa é minha temática de pesquisa. Diversos pesquisadores e também educadores, acreditam que a política de ciclos pode tornar a escola mais inclusiva e democrática, porque baseia-se na continuidade do aprendizado em vez da reprovação, além disso é um modelo de organização escolar e curricular mais flexível comparada a escola seriada. A implantação dos ciclos pode ter a intenção de alterar os tempos e os espaços escolares permitindo uma continuidade do aprendizado ao invés da reprovação. Mas, ao contrário, a implementação da política de ciclos, pode ter um caráter mais conservador, com o objetivo de reduzir o fluxo de alunos e as taxas de reprovação, sem um comprometimento com uma transformação do sistema educacional, pois a escola em ciclos traz uma série de implicações para a organização da escola e trabalho em sala de aula. Por isso, é importante pensarmos que o sistema ciclado não garante qualidade de ensino se as implicações que afetam a cultura institucional da escola não forem garantidas. Por outro lado, o sistema seriado também não garante a qualidade do ensino, pois não é a reprovação que garante a aprendizagem, e cria problemas no que se refere às altas taxas de reprovação e conseqüente evasão escolar.

Gláucia disse...

Gostaria de remeter nestes comentários à postagem da Elismara muitas das coisas a que me referi quando comentei a postagem da Helaine. Gostaria de lembrar que trata-se de definir os atores sociais da questão da discriminação racial. Em nível geral, todo mundo discrimina ou já discriminou, e não precisamos ir tão longe a ponto de considerar apenas a questão racial. A discriminação de natureza econômica é bem real, também. Parte-se do princípio que atualmente "ter mais" significa "ser mais". Ou alguém ainda é ingênuo de pensar que o indivíduo na escola é discriminado apenas pela cor? Quem terá mais prestígio social: aquele que chega na escola à pé ou aquele que chega no carro importado (mesmo que venha dirigindo sem habilitação)? Não se trata só de preconceito racial, que às vezes parece mais conseqüência do que causa da própria questão do preconceito. E preconceito existe também entre pessoas da mesma cor, negros, pardos e brancos. Ninguém nunca foi preconceituoso com alguém do ponto de vista racial? As questões às quais a Elismara se refere dizem respeito diretamente à nós. Não podemos ficar de fora, como se fôssemos observadores externos ao problema. Trata-se de buscar em nós mesmos nossas reações possíveis ao problema racial, para que busquemos alguma solução. A pessoa pode ter uma atitude no espaço privado, e outra, "politicamente correta", no espaço público. Só poderemos resolver um problema desses quando soubermos quem somos como pessoas, depois como sociedade. Talvez o medo de muita gente seja o de não olhar o óbvio: que temos a sociedade organizada conforme a queremos.

Unknown disse...

Oi, professora.
Sua discussão sobre a função social da escola nos faz refletir profundamento sobre a importância do professor na vida escolar de nossa crianças futuros cidadãos, os quais terão possibilidade de contribuir para a transformação da sociedade de forma mais responsável. Agradeço por discutir essas e outras questões contigo em sala de aula enquanto sua aluna. Bjus, Silvana

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