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domingo, 8 de novembro de 2015

Questões sobre a ditadura militar brasileira

Programa Lente Aberta, sobre a Ditadura Militar, com o jornalista Ney Hermann, na TV Educativa de Ponta Grossa

sábado, 5 de abril de 2014

1964, revolução ou golpe?

(publicado no Jornal da Manhã de 31/03/2014)
50 anos depois, o tema continua polêmico. É importante ter em conta o que os pesquisadores das ciências sociais e da história produziram, e evitar repetir acriticamente os discursos políticos da época. Em 1964, o conceito de revolução (transformação profunda das relações políticas, sociais e econômicas) não explica o acontecido. O conceito de golpe, por outro lado, é adequado para explicar o que ocorreu: um movimento articulado de ruptura da ordem institucional que substituiu a direção política do país.
Está superado na academia a ideia de que o golpe se fez para evitar o comunismo. Não havia chance concreta de vitória comunista. O Partido Comunista Brasileiro era então pendente para o reformismo, e a guerrilha urbana e rural só aconteceu na prática a partir de 1969, após o ato de fechamento do regime e suspensão dos direitos civis, com setores dissidentes do PCB e outros. O fantasma comunista novamente foi uma solução retórica dos golpistas para a legitimação ideológica do regime, que na prática que foi útil para superar impasses da industrialização, da ascensão dos movimentos populares e sindicais e para rever a inserção do Brasil na economia internacional de forma conservadora, isto é, eliminando a democracia e retardando a inclusão dos mais pobres de forma protagonista no sistema político e no mercado.
A historiografia sobre 1964 teve diversos momentos: um, nos próprios anos 70, se dedicava a entender estrutural e economicamente a natureza do regime, época em que predominaram os sociólogos, e houve mais colaboração com estudiosos dos países vizinhos. Nesse momento, “populismo” e sua crise eram os elementos-chave de interpretação. No final dos anos 70 e anos 80, pesquisas com base no acesso a extensa documentação demonstraram o caráter conspiratório do golpe, assim como provaram a participação norte americano nele, com espionagem da C.I.A., financiamento dos opositores a Goulart e manobras da marinha americana no litoral brasileiro.
Recentemente, as pesquisas indicam outros fatores na explicação do regime, como a radicalização política em 1964 e a fraqueza do tema da democracia tanto na agenda da direita quanto no da esquerda, de modo que os agentes políticos não aceitaram nenhuma concessão em nome da governabilidade. Um dos pesquisadores mais importantes é Carlos Fico, para quem o golpe teve como causa imediata a ação de parte dos militares no calor dos acontecimentos, e não diretamente de uma conspiração. O que houve, sim, foram ações de vários anos de desestabilização dos governos “populistas”, promovidas pela imprensa conservadora, lideranças da Igreja, setores empresariais e outros agentes conservadores. Em geral, um consenso na historiografia atual é que o regime tem que ser pensado como uma ditadura civil-militar, pois resulta de uma ação de personagens dessas duas esferas, não cabendo a responsabilidade apenas aos militares envolvidos.
Não tem suporte acadêmico a ideia de que a ditadura brasileira foi mais branda que as de outros países do continente. É inegável que, proporcionalmente, a ditadura brasileira produziu menos vítimas do que a ditadura argentina, por exemplo, mas isso não se deve à brandura do regime. O que ocorre é que a ditadura brasileira foi “diluída” por dois fatores: tempo e espaço. Pelas dimensões do Brasil, os atos de repressão, exceto à guerrilha do Araguaia, ocorreram principalmente nas grandes cidades, e junto à classe média urbana. Era um Brasil rural e com uma enorme classe camponesa. Com isso, na maioria das famílias e na maioria das cidades, que eram pequenas ou médias, não se sentiu diretamente a repressão. Em termos de tempo, uma longa ditadura acabou significando que nos seus primeiros anos, e nos seus estertores, a liberdade política foi um pouco maior e a repressão foi bem menor. Esses fatores juntos criaram uma sensação de menor dureza do regime, mas quando se trata de terrorismo de estado (como é o caso), não há graus de dureza ou brandura: sempre os atingidos são jogados numa situação de desespero e morte, sem terem a quem recorrer, e portanto não se pode falar em “ditabranda”.

1964 venceu?

"A ditadura venceu, nunca terminou", "A escravidão venceu, nunca foi abolida". "A censura venceu, nunca foi revogada". Ok, vamos dar sequência ao raciocínio: os paulistas venceram, o Estado Brasileiro nunca foi colocado a serviço de outras regiões do país, a monarquia venceu, nunca nos tornamos uma república, a colonização venceu, o Brasil nunca se tornou independente. Logo vão dizer que os índios venceram, o Brasil nunca foi descoberto. Não é igual um estado monárquico e um estado republicano, não é a mesma coisa a escravidão reconhecida juridicamente e a escravidão como prática ilegal perseguida pelo Estado. Destacar os limites das mudanças históricas é uma coisa, desconsiderá-las e só ver a continuidade dos nossos vícios não é história, é panfleto.
Há quem entenda que a ditadura não acabou, porque ainda há repressão policial nas manifestações, tortura nas delegacias de polícia, etc. Mas, cá pra nós, usando esse argumento por conseguinte a ditadura também não começou, porque violência contra os pobres e contra a classe média insurgente também houve, e muito, e muito antes. Se a ditadura não acabou ainda hoje, então ela também não começou, e se o tempo é só continuidade sem mudanças relevantes, não há sentido para os estudos históricos. Em outras palavras, não se trata de História, mas de panfleto para a luta política atual, ou história de péssima qualidade, é bom que se diferencie.

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

Manual do perfeito idiota politicamente incorreto latinoamericano.

O Vargas Llosa vai me perdoar a inspiração. Ou não, tanto faz.
Joel Rufino dos Santos, na Caros Amigos, sobre o "Guia Politicamente incorreto de História do Brasil":
1 - Os iconoclastas geralmente ignoram o método histórico.
2 - As interpretações da história precisam ser compreendidas de acordo com o seu tempo, por isso o Zumbi ganha destaque nos anos 60, na resistência à ditadura e na proposição igualitarista para a sociedade. O tom dessa leitura é marcado por sua época.
3 - A historicidade também vale para o amadorismo de Narloch: há demanda por uma nova História, avanço do pensamento direitista e oferta desse tipo de guia, para a demanda de autojustificação e identidade do direitista.

A chamada para o livro no site da FNAC é "A verdade sobre a História do Brasil". Agora está explicado! Os historiadores de formação já podem descansar.

sexta-feira, 7 de outubro de 2011

Guia politicamente incorreto... Maria Ligia Coelho Prado

 Reproduzo abaixo a resenha que a historiadora Maria Ligia C. Prado faz do "Guia Politicamente Incorreto da América Latina". Quando vi o livro lá na Verbo, pensei em comprá-lo, mas resolvi que não queria financiar esses autores. Eu detestaria parecer corporativista, logo eu, mas a crítica a esses contrabandistas de história falsificada já estava atrasada, e a resenha da Maria Lígia é muito bem vinda. Que venham outras do gênero, para que a história não seja impunemente colonizada por filibusteiros do mundo editorial.

Resenha do Guia Politicamente Incorreto da América Latina

Maria Ligia Coelho Prado*

O principal objetivo deste Guia, nas palavras dos autores, é derrubar do pedestal o que chamam de “falsos heróis latino-americanos”. São “falsos” porque deles se construíram injustas imagens laudatórias. O livro quer mostrar a “outra” face desses homens, indicando seus equívocos, fraquezas e incapacidades. Cada capítulo está dedicado a uma das personagens que será objeto de críticas, de Simón Bolívar a Che Guevara.
Sem dúvida, a decisão dos autores de centrar o texto nas figuras dos “heróis” ou dos assim denominados “grandes homens” é bastante decepcionante. A desmistificação de heróis – “falsos” ou não, latino-americanos ou europeus – foi tarefa já exaustivamente cumprida pelos historiadores. Para que o passado histórico seja compreendido, é indispensável que se faça uma cuidadosa análise dos pensamentos e ações de homens e mulheres envolvidos na complexa trama de questões sociais, políticas, culturais, religiosas e econômicas.
Para construir seus argumentos e ordenar sua narrativa, Narloch e Teixeira se apóiam em muitas citações retiradas da bibliografia e indicam suas fontes em notas de rodapé, conferindo ao livro um pretenso ar de respeitabilidade acadêmica.
Todos os capítulos trazem afirmações polêmicas, simplificações oportunas e interpretações discutíveis que mereceriam ser esquadrinhadas. Repetem a equivocada estratégia de pinçar frases a esmo, retirando-as do contexto histórico, atribuindo-lhes valores positivos ou negativos sem as devidas explicações e restringindo, portanto, sua compreensão. Diante de tantas possibilidades para o exercício da crítica, escolhemos analisar dois procedimentos utilizados pelos autores para sustentarem seus pontos de vista.
O primeiro deles é o de se apropriar de uma fonte bibliográfica contestada e corroída por suspeitas e apresentá-la ao leitor brasileiro como fidedigna e isenta. O capítulo sobre Salvador Allende, que é particularmente controverso e recheado de afirmações refutáveis, exemplifica tal utilização imprópria. Narloch e Teixeira, no item 6 do capítulo, retiram informações do livro do chileno Víctor Farías, Allende, antissemitismo e eutanásia, para acusar o falecido presidente de racista e anti-semita e para associá-lo a certas práticas nazistas. Essas rotulações já foram fortemente denunciadas e refutadas no Chile, inclusive com a publicação de documentos que demonstram os equívocos de todas essas acusações.
         Para a mais clara compreensão do manuseio das fontes pelos autores,  vamos nos ater à questão do racismo e anti-semitismo. Sobre esse tema, Narloch e Teixeira reproduzem trechos retirados do livro de Farías, que supostamente teriam sido transcritos da tese Higiene mental e delinqüência, que Allende escreveu para obter o título de médico em 1933. As frases atribuídas a Allende estão carregadas dos piores preconceitos sobre judeus, ciganos, árabes, italianos, homossexuais e alcoólatras. Entretanto, a Fundação Presidente Allende, da Espanha, para refutar as diatribes de Farías, publicou a tese original de Allende, que também está disponível na internet. O que se constata é que Allende estava, no trecho mencionado, reproduzindo frases de Lombroso – ele afirma isso literalmente - numa discussão sobre suas teorias, como ainda era usual no começo dos anos 1930. A conclusão de Allende sobre as possíveis relações, defendidas por Lombroso, entre origem étnica e delito criminoso, é a de que não havia dados precisos para demonstrar tal influência “no mundo civilizado”. (p.115 da tese) Frase esta que não aparece na transcrição de Farías e do Guia. Como se sabe, o bom historiador e o bom jornalista devem checar suas fontes, estudá-las, compará-las, garantir sua credibilidade e depois transcrevê-las com correta isenção.
         O segundo procedimento refere-se ao mecanismo de utilização de uma fonte bibliográfica de prestígio para referendar ou legitimar conclusões bastante diferentes daquelas defendidas pelos autores do Guia. O capítulo sobre Pancho Villa, líder da Revolução Mexicana, é, neste sentido, exemplar. A intenção explícita de Narloch e Teixeira é demonstrar que Pancho Villa não era anti-americano e que não foi um Robin Hood latino-americano. (p.239) Para alcançar seu objetivo, os autores fazem referências a trabalhos de historiadores de onde retiram informações pontuais e dados específicos. Entre eles, um se sobressai, pois é citado em 27 das 47 notas de rodapé: Friedrich Katz, historiador da Revolução Mexicana, homem de convicções esquerdistas e autor de uma monumental biografia de Pancho Villa. Nela, Katz salienta o lugar de Villa no movimento revolucionário e procura fugir das lendas e da construção do mito. A trajetória pessoal e política de Villa é analisada integrada ao contexto social do México. Assim, existe um fosso entre a abordagem e conclusões de Katz e aquelas encontradas no Guia. A voz de autoridade de Katz é utilizada apenas para conferir credibilidade aos argumentos do Guia.
         Para terminar, uma observação de caráter geral. Os autores apresentam no Guia uma visão desdenhosa sobre a História da América Latina. Só se entende essa exacerbada desqualificação se ela for pensada como a outra face do real desconhecimento dos autores sobre o assunto.


*Maria Ligia Coelho Prado é Professora de História da América Latina da USP

domingo, 10 de julho de 2011

Ensino de História nos colégios militares - Portal Sul 21

Repercussão do tema em reportagem do portal.

O ensino de história nos colégios militares

Preparei o texto que foi publicado aqui como posicionamento da ANPUH sobre esse problema.
Muitos, inclusive a burocracia do MEC, querem fazer crer que se trata de um problema ideológico e de liberdade de expressão. Queria saber a atitude do MEC quando escolas particulares fundamentalistas começarem a dizer que o sol gira em torno da Terra.
Dizer que o golpe de 64 foi uma revolução para salvar a democracia (acabando com ela) contra o comunismo não é só um discurso político retrasado e reacionário, é passar ao largo de toda a pesquisa histórica desenvolvida no país até hoje sobre o assunto. Corresponderia a um livro didático atual de ciências dizer que as doenças são causadas por vapores e miasmas em vez dos microorganismos, ou que a história da humanidade tem cinco mil e poucos anos, apenas, porque os livros religiosos não permitem o reconhecimento das evidências da paleontologia, e que temos que aceitar isso, porque cada um tem a sua versão dos fatos. Pior, esse argumento de quinta categoria faz com que a gente seja obrigado a aceitar neonazistas dizendo que não houve holocausto, afinal cada um tem a sua verdade, não é assim?

Oportunamente, os defensores de 64 viraram apóstolos do relativismo histórico, ou aquela ideia de que verdade é como escova de dentes, cada um com a sua. Um estranho pós-modernismo a favor da ditadura civil-militar: já que as evidências não ajudam mais o discurso da "Revolução", danem-se as evidências.

domingo, 26 de setembro de 2010

Discriminação positiva

A ira é péssima conselheira. Percebe-se isso ao ler o texto “A insensatez da discriminação”, publicada n’O Portal de 26/09/2010. O autor, professor Moacyr de Lima e Silva, ataca todo o preconceito e discriminação com a fúria dos justos, e atira os epítetos de “estupidez”, “imbecilidade” e “burrice” a quem discrimina. Sobram petardos para os fidalgos e para quem fez doutorado na Europa. Nesse tiroteio, as cotas, ou políticas afirmativas, também são atingidas.
O que é discriminar? Do latim discriminare, significa, fazer uma distinção, tratar alguém diferente por causa de alguma característica sua. Toda discriminação seria um abuso, então? Não é bem assim. Vejamos. As filas se formam por um princípio igualitário: a ordem de chegada. Ao darmos a frente a uma mulher grávida ou a um cadeirante, estamos tratando-os diferente. Podemos encontrar centenas de situações em que tratar todos igualmente significa uma injustiça porque, na prática, não somos todos iguais. A igualdade formal está posta (“todos são iguais perante a lei”), mas a igualdade material (que seria “todos são dotados das mesmas condições para realizarem-se como pessoas e cidadãos brasileiros”) não está garantida.
Aristóteles afirma o princípio de que não basta igualdade: é necessário tratar desigualmente os desiguais para obter justiça. Se ficar na fila é um incômodo, ele é maior para quem está em situação de maior fragilidade. Como sociedade, definimos que pessoas que são mais jovens, ou não enfrentam condição que reduza sua condição física podem esperar mais. É desse princípio que nascem as ações afirmativas, conhecidas popularmente por cotas. Corrige-se o fator que causa a desigualdade, compensando os desfavorecidos com um tratamento diferente ou, em outras palavras, discriminatório. A discriminação também pode ser positiva, a favor de quem precisa.
Outro ponto que merece discussão é sobre as causas da escassa presença de negros nas universidades, profissões e posições de prestígio, por exemplo. De fato, temos poucos negros médicos, juízes, deputados, e assim por diante. Se a escravidão é uma mancha que ficou para trás, e se agora somos todos iguais, e a cor da pele não tem a ver com a capacidade de ninguém, por que essa falta de negros nas elites econômicas, sociais, intelectuais, científicas?
Somos todos iguais, é verdade, e nossa inteligência ou evolução espiritual nada tem a ver com a cor da nossa pele. Mas isso, como a igualdade formal, não basta. É só inverter a afirmação “a cor da pele não nos faz diferentes” para “não faz diferença a cor da pele”. No Brasil, a primeira afirmação é verdadeira, e a segunda é falsa. A escravidão acabou (?) mas não seus efeitos, ou seja, uma sociedade montada para manter o negro - e todos os que possam ameaçar a concentração da riqueza - em situação de inferioridade, através do racismo disfarçado e não admitido que nos marca. Não sou eu quem diz, é o sociólogo Florestan Fernandes.
Se, aos poucos, como sociedade, estamos vencendo as barreiras que não permitem aos negros ocupar todos os espaços que merecem, como brasileiros, isso se deve em boa parte a políticas afirmativas. E os negros que entraram nas universidades por cotas mostram que são tão bons quanto os brancos, ou seja, somos, sim, iguais. Só que o vestibular era uma barreira intransponível em muitos cursos para quem não vinha de escola particular, e era isento de um trajetória de vida de discriminação velada ou aberta, que minam a autoestima e o desempenho da criança e do jovem negros. Todo somos iguais, mas se não houvesse cota, os alunos negros não teriam tido a chance de mostrar isso.

segunda-feira, 14 de junho de 2010

O ensino da história da ditadura para militares

Reproduzo abaixo reportagem da FOlha de São Paulo repercutido na lista do GT de Ensino de História e Educação da ANPUH. Que as cúpúlas militares queiram ter sua própria visão enviesada da História, vá lá, mas que queiram educar as próximas gerações nesse libelo autoritário sem qualquer sustentação nas ciências da História e da Educação, não dá para admitir.

Livro do Exército ensina a louvar ditadura
* *Colégio militar usa material de história com perfil diferente do indicado
pelo MEC*


* ANGELA PINHO*
DE BRASÍLIA


A história oficial contada aos alunos dos 12 colégios militares do país
omite a tortura praticada na ditadura e ensina que o golpe ocorrido em 1964
foi uma revolução democrática; a censura à imprensa, necessária para o
progresso; e as cassações políticas, uma resposta à intransigência da
oposição. É isso que está no livro didático "História do Brasil -Império e
República", utilizado pelos estudantes do 7º ano (antiga 6ª série) das
escolas mantidas com recursos públicos pelo Exército. Nelas, estudam 14 mil
alunos, entre filhos de militares transferidos ou de civis aprovados em
concorridos vestibulinhos. De cada aluno é cobrada uma taxa mensal de R$ 143
a R$ 160, da qual estão isentos os que não podem pagar. Mas 80% das despesas
são custeadas pelo Exército.


As escolas militares poderiam utilizar livros gratuitos cedidos pelo
Ministério da Educação a todas as escolas públicas. Mas, para a disciplina
de história, optaram pela obra editada pela Bibliex (Biblioteca do
Exército), que deve ser adquirida pelos próprios alunos. Na internet, o
preço é R$ 50, mais um caderno de exercícios a R$ 20. O Exército afirma que
o material "atende adequadamente às necessidades do ensino de História no
Sistema Colégio Militar".


O livro de história mais adquirido pelo MEC para o ensino fundamental, da
editora Moderna, apresenta a tomada do poder pelos militares como um golpe,
uma reação da direita às reformas propostas por João Goulart (1961-64). A
partir disso, diz a obra, seguiu-se um período de arbítrio, com tortura e
desaparecimentos, em que a esquerda recorreu à luta armada para se
manifestar contra o regime.


Já a obra da Bibliex narra uma história diferente: Goulart cooperava com os
interesses do Partido Comunista, que já havia se infiltrado na Igreja
Católica e nas universidades. Do outro lado, as Forças Armadas, por seu
"espírito democrático", eram a maior resistência às "investidas
subversivas". No caderno de exercícios, uma questão resume a ideia. Qual
foi o objetivo da tomada do poder pelos militares? Resposta: "combater a
inflação, a corrupção e a comunização do país".


*TORTURA*


A obra não faz menção à tortura e ao desaparecimento de opositores ao regime
militar. Cita apenas as ações da esquerda: "A atuação de grupos subversivos,
além de perturbar a ordem pública, vitimou numerosas pessoas, que perderam a
vida em assaltos a bancos, ataques a quartéis e postos policiais e em
sequestros". A censura é justificada: "Nos governos militares, em
particular na gestão do presidente Médici [Emílio Garrastazu, 1969-1974],
houve a censura dos meios de comunicação e o combate e eliminação das
guerrilhas, urbana e rural, porque a preservação da ordem pública era
condição necessária ao progresso do país."


As cassações políticas são atribuídas à oposição do MDB (Movimento
Democrático Brasileiro). "Embora o governo pregasse o retorno à normalidade
democrática, a intransigência do partido oposicionista motivou a necessidade
de algumas cassações políticas", diz trecho sobre o governo Ernesto Geisel
(1974-79). Para o historiador Carlos Fico, da UFRJ (Universidade Federal do
Rio de Janeiro), o livro usado nos colégios militares é problemático tanto
do ponto de vista das informações que contém como pela forma como conta a
história.


"O principal motivo do golpe foi o incômodo causado pela possibilidade de
que setores populares tivessem uma série de conquistas." Mas, para Fico,
mais grave ainda é a forma como o livro narra o período, com uma "história
factual" carente de análise, focada apenas na ação dos governos. "Trata-se
de uma modalidade desprezada inclusive pelos bons historiadores
conservadores", avalia.


*ANÁLISE*


*A "história oficial" e os argumentos interessados*


*HÉLIO SCHWARTSMAN*
ARTICULISTA DA *FOLHA*
Permanece aberta a questão do estatuto epistemológico da história. Definir
se ela é uma ciência e o grau de objetividade de seus juízos envolve uma
controvérsia que dificilmente vai se resolver antes do fim dos tempos.


Numa linha mais pragmática, pode-se afirmar que é do confronto entre
diferentes concepções de historiografia e de como ela se relaciona com os
fatos que se forja a visão que cada época elabora de seu próprio passado.
Assim surge a história oficial, que sempre poderá ser revista de acordo com
novas interpretações, numa demonstração de que às vezes nem o passado é
imutável.


Essa frouxidão epistêmica, típica das chamadas ciências do espírito, está
longe contudo de significar um vale-tudo. Por mais difícil que seja depurar
a ideologia constante de qualquer discurso, enquanto a linguagem conservar
algum valor, haverá narrativas mais ou menos precisas e relatos mais ou
menos honestos.
É perfeitamente razoável debater, por exemplo, os rumos que tomava o governo
de João Goulart. Pode-se também discutir o alcance e o significado social do
chamado Milagre Brasileiro. São questões que comportam legitimamente
interpretações mais à esquerda ou à direita.


A argumentação politicamente interessada, porém, através de eufemismos,
omissões ou falsificações, pode dar lugar a crimes de lesa-historiografia. É
o que faz o livro adotado pelo Exército quando deixa de informar que a
"Revolução levada a efeito, não por extremistas, mas por grupos moderados e
respeitadores da lei e da ordem" derrubou pelas armas um regime
democraticamente eleito -o que, em bom português é golpe de Estado.


Ainda pior, a obra simplesmente deixa de mencionar que setores ligados às
Forças Armadas se valeram de tortura para desbaratar os grupos de esquerda,
o que, independentemente das intenções dos militantes, era proibido pelas
leis editadas pelo próprio regime militar. Em 2007, setores da mídia
conservadora protestaram com razão contra os excessos esquerdistas de um
livro didático, "Nova História Crítica", que foi distribuído para algumas
escolas pelo MEC. Será curioso observar como reagirão agora ao mesmo erro
com sinal invertido.


*OUTRO LADO*


*Não há juízo de valor, afirma comandante *


DE BRASÍLIA
O coronel Silva Alvim, comandante do colégio militar de Brasília, o maior do
Exército, afirma que as escolas militares abordam "apenas o fato histórico",
sem juízos de valor sobre o regime militar. Questionado sobre a omissão dos
torturados e desaparecidos no livro do 7º ano, diz que se trata de um tema
proibido. "Dentro desse culto aos valores e tradições do Exército, esse tipo
de assunto [tortura e desaparecidos] nós buscamos não tratar. Até porque, no
âmbito do Exército brasileiro, essas questões não são permitidas", diz.


Curiosamente, no ensino médio, a apostila adotada pelo colégio militar de
Brasília, feita pelo sistema Poliedro, fala em "ditadura" e "tortura". Mas
"não enfaticamente", responde o coronel ao ser indagado sobre a diferença de
abordagem. Questionado sobre o livro, o Centro de Comunicação Social do
Exército afirmou apenas que a linha didático-pedagógica da obra, adotada
desde 1998, "atende adequadamente às necessidades do ensino de História no
Sistema Colégio Militar". O Ministério da Defesa disse, via assessoria de
imprensa, que o teor do livro "será levado ao conhecimento das autoridades
competentes".

terça-feira, 18 de maio de 2010

Colóquio "O que resta da Ditadura?"

Juntando quem se preocupa com o fato de que em Ponta Grossa ainda há várias homenagens em nomes de ruas, praças e bairros, à sanguinolenta ditadura militar, organizamos o colóquio "O que resta da ditadura", para discutir as homenagens à ditadura (Movimento "Troque o 31 pelo 15" (trocar o nome do bairro 31 de Março - data do golpe militar - por 15 de março - data da redemocratização do Brasil em 1985)e a reinterpretação da Lei da Anistia.
Abaixo, o cartaz:


Fotos pelo pessoal da disciplina de Fotojornalismo da UEPG e cobertura do evento pela assessoria de comunicação da universidade : aqui

O evento foi coberto também pelo Portal Comunitário.

segunda-feira, 1 de junho de 2009

O negro no mundo dos brancos


Agora que já vimos um pouco da compreensão de Sérgio Buarque de Holanda e Darcy Ribeiro sobre o que é e o que faz o Brasil, um sociólogo dos mais importantes para entender o que é o nosso país (e como a educação acaba por funcionar nele) é Florestan Fernandes. Na introdução de "O negro no mundo dos brancos", Fernandes indica que nossa sociedade foi feita para uso e gozo das elites brancas e dos colonizadores estrangeiros. A integração do negro nela só se dá na medida em que ele se descaracterize cultural e socialmente.
Isso faz lembrar um antigo quadro do Casseta e Planeta (desculpem minha falta de cerimônia) em que o negro da turma, o Hélio de La Peña, ia a uma passeata pela paz, na qual tinha que ir "vestido de branco", e aí o repórter perguntava por que ele não estava vestido de branco, e ele reclamava: "- Como assim? Olha só: sapato, calça social, camisa de manga comprida por dentro da calça... Claro que eu tê vestido de branco!". O Florestan Fernandes discute assim:

"Que equilfbrio podem ter o "negro" e o "mulato" se são expostos, por princípio e como condição de rotina, a formas de auto-afirmação que são, ao mesmo tempo, formas de autonegação? No cume da ascensão social ou no fim de um longo processo de aperfeiçoamento
constante, o indivíduo descobre que extrai o seu próprio valor, e o reconhecimento desse valor pelos outros, daquilo em que ele não é, decididamente, nem negro nem mulato - mas BRANCO! Para os analistas superficiais, esse imperialismo da branquitude é normal e necessário. Isso porque fomos levados a crer que a integração nacional do Brasil depende dessa forma unilateral de realizar a nossa unidade nacional. Nunca tentamos pensar numa direção diversa e imaginar como poderia ser essa mesma unidade se, em vez de integrar por exclusão, ela integrasse por multiplicação." (O negro no mundo dos brancos, p. 15)

O que eu quero propor para discussão é quais as consequências que essa situação traz para a educação do negro, e como nossas escolas participam ou deixam de participar desse processo.

terça-feira, 26 de maio de 2009

O povo brasileiro - Darcy Ribeiro - Porque o Brasil ainda não deu certo?

(Esse post é parte das atividades da disciplina de Fundamentos Sócio-Antropológicos da Educação, do Mestrado em Educação da UEPG)

Conversamos que pode ser que a questão que motiva essa grande síntese de D.R. (por que o Brasil ainda não deu certo) não se coloque desse modo. Não "dar certo" pode ter significado a única alternativa de sobrevivência coletiva diante das condições impostas para colonizadores e colonizados. Mas se aceitamos que ainda falta o Brasil realizar suas potencialidades, a resposta é bem parecida com aquela que Sérgio B. de Holanda (em Raízes do Brasil) aponta, ou seja, o Brasil nunca existiu em função de seu povo; pelo contrário, existiu para "gastar gente" fazendo girar o mecanismo que alimentou o mercado mundial e enriqueceu as elites locais, culturalmente voltadas para a Europa e de costas para seu povo. D.R. indica que as grandes cidades coloniais e imperiais, os grandes intelectuais e artistas brasileiros de nada valeram, em comparação com os Estados Unidos (a "América"), para que o Brasil "desse certo" afinal no século XX, porque nada disso era expressão do povo ou voltado a beneficiá-lo e engrandecê-lo.

Por outro lado, o povo precisa negar sua "ninguemdade", assumir-se e valorizar-se. Mas ainda não há em D.R. a mesma perspectiva que há em S.B.H. de que nos realizamos quando esse povo tomar o poder, independentemente das classes médias e da intelectualidade. Penso que D.R. vê a oposição entre povo e não-povo, colocando-se no primeiro polo, enquanto podemos entender que intelectualidade e a classe média não têm expressão em si, sendo pendentes para apoiar ou o povo, ou as elites. Como o usual é apoiar - e querer ser como - a elite, a perspectiva é que o povo tem que fazer-se, sem precisar ou mesmo apesar da classe média e dos intectuais. Essa seria a perspectiva nascida nos anos 70, nas Comunidades Eclesiais de Base, no Novo Sindicalismo e na esquerda comunista não-ortodoxa, por sinal as três bases do surgimento do PT (do qual Sérgio B. de Holanda e Paulo Freire foram fundadores).

O povo brasileiro - Darcy Ribeiro - o Brasil pré-existente a Cabral

(Esse post é parte das atividades da disciplina de Fundamentos Sócio-Antropológicos da Educação, do Mestrado em Educação da UEPG)

D.R. dedica um dos primeiros capítulos da obra à "Ilha Brasil", idéia de que o país antecede a sua descoberta pelos portugueses e sua invenção pelos brasileiros depois da independência. Indica para isso razões geográficas e humanas, indicando os tupis como responsáveis pelo rascunho geográfico do país. Duas coisas decorrem disso:
a) Sua visão do Brasil acaba fortemente condicionada pela sua percepção patriótica. Para o nacionalismo, quanto mais antiga puder ser a nação imaginada, mais legitimidade terá o apelo nacional sobre as pessoas. O problema é que, do ponto de vista da Antropologia de meados do século XX para a frente, falar em Brasil antes de 1500 - eu acho que antes de 1822 - é uma forma de anacronismo e de etnocídio, pois reduz a experiência indígena pré-cabralina ao "destino" que a abarcou com a chegada dos portugueses, ou seja, reduz o índio à civilização dos brancos.
b) A visão de nação de nação que D.R. está praticando é mais culturalista que política, a nação parece decorrer muito mais da terra e do sangue do que das escolhas conscientes e voluntárias dos seus cidadãos. Assim, a nação se impõe e limita as opções do sujeito, e o nacionalismo pode ser usado como arma de manipulação de massas ou como recurso de limitar o pensamento e as opções. É interessante pensar que outro sujeito que partilha essa idéia de um Brasil telúrico, pré-existente, esperando para acontecer, é Golbery do Couto e Silva, ideólogo principal do regime militar, que derrotou a tendência política e a geração de D.R.

O povo brasileiro - Darcy Ribeiro - o Brasil e o futuro

(Esse post é parte das atividades da disciplina de Fundamentos Sócio-Antropológicos da Educação, do Mestrado em Educação da UEPG)

O primeiro elemento que me chama a atenção é a idéia de D.R. de que o brasileiro é aberto ao futuro:
" É de assinalar que, apesar de feitos pela fusão de matrizes tão diferenciadas, os brasileiros são, hoje, um dos povos mais homogêneos lingüística e culturalmente e também um dos mais integrados socialmente da Terra. Falam uma mesma língua, sem dialetos. Não abrigam nenhum contingente reivindicativo de autonomia, nem se
apegam a nenhum passado. Estamos abertos é para o futuro. " (p. 419 - edição de bolso da Companhia das Letras, 2006)

Essa idéia parece compatível com o relativo apreço que temos pelo novo (até no nome dos regimes políticos) e a pouca importância que damos ao patrimônio histórico, inclusive imaterial. O politólogo Alain Rouquié aponta essa mesma percepção:
"-Brasil es todo lo contrario de la Argentina. En la Argentina la gente se acuerda de todo. Es el país de la memoria. La Argentina es el país de "Funes el memorioso". Por el contrario, Brasil es el país de la antimemoria. El país del olvido. Brasil se olvidó de la dictadura. Es verdad que esa dictadura no fue feroz. Las cosas en Brasil se fueron modificando en forma paulatina y serena. El Perón brasileño, Getulio Vargas, ya es parte de la historia. Nadie se declara hoy "getulista", a pesar de que Vargas (1937-1945) hizo prácticamente lo mismo que Perón en lo bueno y en lo malo. En Brasil la historia continúa. Esa es la gran diferencia. La diferencia radica en la actitud que se tiene frente a la historia. Esa es la característica argentina: la historia nunca es definitiva. Su revisión ocupa el centro de la vida intelectual. Un revisionista encuentra siempre otro revisionista que dice "no estoy de acuerdo con eso". (Entrevista ao jornal "La Nación" de 26/10/2008)

Cabe-nos decidir se isso é um problema ou uma vantagem. Acho que para os argentinos, sua característica de ligação com o passado é em grande parte uma desvantagem, embora nos ofereça um patrimônio histórico belíssimo preservado, e não necessariamente pela ação do poder público, mas pela ação do povo mesmo, ao não destruir os edifícios já feitos por vandalismo ou por busca de lucro.

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