segunda-feira, 10 de maio de 2010

"O Valor da História Hoje" - I

Entre os dias 6 e 7 de Maio, tive a oportunidade de participar do Seminário Nacional O valor da história hoje, promovido pelo grupo Oficinas da História, que reúne profissionais da UERJ, UFRJ, PUC-Rio e UniRio. A abertura do evento (da qual não participei) foi feita por Durval Muniz de Albuquerque Jr., presidente da ANPUH. O Grupo Oficinas da História é um grupo modelo de articulação entre história e ensino de história, envolvendo tanto profissionais que se vinculam mais diretamente ao ensino de história quanto historiadores interessados na temática do ensino, tanto como objeto de pesquisa histórica quanto de reflexão didática para a atualidade. O seminário dedicado ao prof. Manoel Luiz Salgado Guimarães, falecido em abril de 2010. A seguir tento fazer um pequeno panorama dessa interessante experiência, destacando um aspecto que me pareceu recorrente, que foi o de um movimento em que a teoria da história e a historiografia colocavam questões para a didática da história e, simetricamente, as discussões da didática da história e da história do ensino de história pontuavam diversas questões para a teoria e a historiografia.

6/05 - MESA REDONDA A QUESTÃO DO PRESENTE E O ENSINO-APRENDIZADO DA HISTÓRIA



Falaram Valdei Araújo, Marcello Magalhães e Ana Maria Monteiro, de diferentes lugares e trajetórias, procurando enquadrar a questão do tempo presente no ensino de história.

Fala de Valdei Lopes de Araújo - UFOP, pesquisador de história da historiografia:
Procurou discutir o enfrentamento do tempo presente na sala de aula do ponto de vista do professor de teoria da história. Comentou a transformação do valor epistemológico do tempo presente - Rüsen - é no presente que a experiência se torna possível e passado e futuro vigoram como efeito e expectativa. Articulou o tema do presente com o da imparcialidade na escrita da história: a passagem do tempo nos ajudaria a entender a história, não pela razão primária de que evita as paixões, mas porque permite visão mais completa, melhor posição cognitiva, melhor articulação entre parte e todo na perspectiva da historiografia moderna.
- o presente pode ser pensado de duas formas complementares, a primeira como presença (convergência de imagens, retensão e protensão) e como época
- Nietzche - revolta contra a confiança historicista no progresso - aponta o valor ético do anacronismo, como possibilidade de não continuar preso a seu passado, mas romper com ele para livrar-se de seus vícios e problemas / W. Benjamin - libertar o passado / tanto Benjamin quanto Nietzche antecipam a crítica da visão moderna da história
- perda de orientação global / alargamento do presente / perda da confiança em realizar o futuro como redenção do presente - perda da história como grande cadeia causal - consequências do alargamento do presente para o ensino de história - sincronismo e anacronismo como ambas possibilidades legítimas de formação e pensamento histórico.
- produção de sentido e orientação devem conviver com outras formas de relação com o tempo - a tarefa da história continua ser desalienação no sentido de ampliar as possibilidades da escrita de dar sentido, desvelar o mundo e entender que também há o reverso do sentido, a falta de sentido, o horror - não basta domesticar a história, estar alienado na crença de que é possível dominar todo o sentido da história
- pensar em formas anacrônicas de organização da experiência histórica para a sala de aula
- a aula - etimologia - situação em que uma lição pode acontecer, além de um local em que uma lição é dada
fala de Marcelo de S. Magalhães - prof. da UERJ / faculdade de formação de professores, pesquisador de história política e cidadania
O ponto de partida desse debatedor foi o seu interesse pelo período de início da República com manuais escolares, e a busca de relação constante entre ensino de história e historiografia.
- Centrou a exposição no trabalho de João Ribeiro, autor de Livros didáticos, cuja trajetória intelectual envolve participação do IHGB - análise de “História do Brasil - curso superior”, obra didática em que Ribeiro passa a apresentar-se como primeiro a escrever a história do Brasil como uma nova síntese para além da descrição dos mandatos dos governantes - reivindica uma história do Brasil do interior
- Os historiadores “positivistas” (os falta de melhor termo) no Brasil oitocentista pouco escreveram história do seu presente, que seria a história do império. Varnhagen, por exemplo, em “História da independência” publicada postumamente, em 1916 colocava-se o problema, para a história do presente, da objetividade e das testemunhas vivas que contestam o historiador.
- Em geral, autores abordados rejeitam a paixão e nos Lds reafirmam a importância do distanciamento temporal. Apesar disso, a dimensão do presente é importante para esses historiadores que achavam que a história é restrita ao passado - eles se permitem discutir o presente em discursos, artigos de jornais, ou seja, fora da produção acadêmica de conhecimento histórico.
- Marcelo Magalhães aponta que João Ribeiro destacou, em seu discurso de posse no IHGB o presente como organizador do passado, e que em alguns casos a imparcialidade pode ser imoral, ainda que proteja os vivos. é possível verificar no pensamento do autor que o presente convive com a condição de interdito para a história (= passado) e com a sua importância pedagógica, motivo pelo qual aparece na obra didática e nos programas oficiais

Fala de Ana Maria Monteiro, diretora da FE da UFRJ
O ponto de partida da debatedora é o dos estudos de didática e currículo, interessada na investigação do estatuto epistemológico da Didática, que conduz à necessidade de diálogo com os historiadores.
Monteiro indica que a prática é tradicionalmente vista como lugar do não saber, da não teoria, o objetivo da palestrante é investigar esse espaço-tempo da prática. Quanto ao conceito de conhecimento histórico escolar: Ana Maria não defende, como os pesquisadores franceses, que seja um conhecimento original, mas concorda com a ideia de que ele produz configurações originais
- epistemologia social escolar / relação dos docentes com os saberes - considera o professor como intelectual, não como um simples transmissor - o que é ensinado não deriva natural e automaticamente da ciência, mas sim produção sociocultural - relações são tão imbricadas e cotidianas que se tornam naturalizadas - não se pensa, por exemplo, na constituição histórica da própria escola
- conhecimento histórico escolar - elaboração mediada por escolhas educativas baseadas em valores (axiológicas)
(não pude assistir a fala até o final porque tive que sair para ir buscar o computador que esqueci no avião no dia anterior - nesse momento a profa. Ana Maria desenvolveu uma discussão sobre o uso do anacronismo nas aulas de história)

quarta-feira, 5 de maio de 2010

Campanha pela memória e pela verdade

A OAB/RJ está fazendo uma campanha pela abertura "ampla, geral e irrestrita" dos arquivos da ditadura. De fato, não é possível a um país continuar sem acertar as contas com o próprio passado. Eu, pelo menos, estou farto de receber mensagens que falam dos "terroristas" que lutaram contra a ditadura e hoje estão anistiados e recebendo pensões (ou suas famílias), ou os agropecuaristas nativos que têm orgulho do "31 de Março".

O texto do abaixo assinado é o seguinte:

Nós, abaixo assinados, apoiamos a Campanha pela Memória e pela Verdade, desenvolvida pela OAB/RJ, em defesa da abertura dos arquivos da repressão política no período da ditadura militar.
Nós, abaixo assinados, consideramos que é direito das famílias dos desaparecidos conhecerem o destino de seus entes queridos.
Nós, abaixo assinados, estamos convictos de que o conhecimento pleno do que ocorreu nos porões da ditadura durante os chamados anos de chumbo é importante para se evitar a repetição da barbárie. Um país que não conhece sua História está fadado a repetir os erros.
Por fim, esperamos que as autoridades do Executivo e do Legislativo, a quem se destina este documento, determinem as providências necessárias para que seja dada publicidade aos arquivos, criando assim as condições para uma verdadeira reconciliação nacional.

O link para assinar é http://www.oab-rj.org.br/forms/abaixoassinado.jsp.

sábado, 1 de maio de 2010

Operação "medo da Dilma"

Está em curso no Brasil a operação "Medo da Dilma", parecida com a que já foi utilizada anteriormente, a operação "Medo do Lula" e "Medo do PT".
Vide Regina Duarte com o monólogo "eu tenho medo"...

O mote agora é o do passado de militante da luta armada contra a ditadura, que ela assaltou bancos e atirou em pessoas. Não à toa, o tema da Anistia, das indenizações para pessoas prejudicadas pelo Estado Brasileiro sob a ditadura e congêneres voltam à cena.
1 - Não se constrói um país com medo.
2 - Essa campanha tem elementos para ser bastante "histórica", se o DEMO-Tucanato conseguir empurrar a Dilma para as cordas desse debate, desviando da comparação entre os 8 anos da presidência do PSDB e os oito da presidência do PT.

domingo, 25 de abril de 2010

José Serra e José Roberto Arruda

Recordar é viver...



... será que o PSDB ainda vai usar um discurso moralista nessas eleições?

domingo, 18 de abril de 2010

O 31 pelo 15 para chegar ao século XXI

Muitos dizem que em Ponta Grossa vigora uma mentalidade atrasada. Por formação e por dever de ofício, não aceito que existam sociedades ou pensamentos “adiantados” ou “atrasados”, pois isso significaria que há um tempo comum em que todos tem que se encaixar, e isso não se sustenta. Mas confesso que às vezes duvido dessa convicção.
O artigo do sr. Taques Fonseca no Jornal da Manhã de 18/04/2010 (“Temos muito orgulho do 31 de Março”) revela quão importante é o debate proposto pelo movimento “31 pelo 15”. Não é questão menor. A forma com nos relacionamos com nosso passado mostra o que somos e principalmente o que queremos ser, como povo. As coisas e pessoas homenageadas nos logradouros públicos são amostras da cultura política coletiva.
Os argumentos de Fonseca, com todo respeito, estão no século XX, reproduzem o discurso político dominante dos anos 60, e o que mais precisamos é estar no século XXI. Qualquer um que tenha acompanhado o debate historiográfico e sociológico sobre a ditadura sabe que exagerar a “ameaça comunista” foi a desculpa para uma parte da elite assumir o poder via golpe militar e reorganizar o estado de modo autoritário dentro de sua visão econômica e social. As elites - rurais, empresariais, financeiras, internacionais - não suportavam o modelo varguista de estado, que limitava seus ganhos. Com os generais presidentes e seus civis de confiança, o “bolo” cresceu, e todos sabemos quem o comeu. Não foi o gato.
Concordo com Fonseca que devemos educar nossos jovens, para que não se confundam. É muito triste ver que há quem não diferencie criteriosamente a democracia da ditadura. Os atos violentos da oposição armada foram um grão de areia perto do banho de sangue que foi a repressão promovida por bandos civis financiados por empresários e pelo estado. Esse banho oficial de sangue é a principal marca do 31 de Março, e não parou mesmo quando derrotaram a luta armada, entrando pelos anos 70 e matando opositores que eram contra pegar em armas, e gente que apenas era contra o regime, incluindo idosos, adolescentes, grávidas...
Não temos aqui nenhum logradouro que homenageie símbolo ou líder comunista. Não se reivindica isso. O que queremos saber é se vamos continuar homenageando a opressão, a censura, a tortura, o terrorismo de estado que se ligam à data de 31 de Março de 64. Viva o 15 de Março, que permitiu achar alguma coisa e continuar sendo achado!

sábado, 17 de abril de 2010

Chega de financiar a Folha / Veja

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(3:55:45 PM) ------------------ reservadamente fala para lfcerri@uol.com.br: Posso ajudar com mais alguma informação?

(3:56:07 PM) lfcerri@uol.com.br reservadamente fala para ------------------: Queria saber se vc pode repassar aos seus superiores o motivo do meu interesse em cancelar a assinatura

(3:56:58 PM) ------------------ reservadamente fala para lfcerri@uol.com.br: Não realizamos esse procedimento, visto que o cancelamento é efetuado através do atendimento telefônico.

(3:58:30 PM) lfcerri@uol.com.br reservadamente fala para ------------------: Bom, só pra constar:
Depois do resultado Datafolha desse sábado (Serra 10 pontos a frente de Dilma) o grupo Abril perdeu toda a credibilidade para mim, e não quero mais ajudar a financiá-lo.

(3:58:55 PM) ------------------ reservadamente fala para lfcerri@uol.com.br: Sua reclamação será registrada, porém é necessário o contato telefônico.

(3:59:04 PM) lfcerri@uol.com.br reservadamente fala para ------------------: Era só isso, agradeço a informação.

sexta-feira, 16 de abril de 2010

Direita e esquerda no Brasil hoje

Repercuto texto do prof. Emir Sader:

Diante de alguns argumentos que ainda subsistem sobre o suposto fim da divisão entre direita e esquerda, aqui vão algumas diferenças. Acrescentem outras, se acharem que a diferença ainda faz sentido.

Direita: A desigualdade sempre existiu e sempre existirá. Ela é produto da maior capacidade e disposição de uns e da menor capacidade e menor disposição de outros. Como se diz nos EUA, “não há pobres, há fracassados”.
Esquerda: A desigualdade é um produto social de economias – como a de mercado – em que as condições de competição são absolutamente desiguais.

Direita: É preferível a injustiça, do que a desordem.
Esquerda: A luta contra as injustiças é a luta mais importante, nem que seja preciso construir uma ordem diferente da atual.

Direita: É melhor ser aliado secundário dos ricos do mundo, do que ser aliado dos pobres.
Esquerda: Temos um destino comum com os países do Sul do mundo, vítimas do colonialismo e do imperialismo, temos que lutar com eles por uma ordem mundial distinta.

Direita: O Brasil não deve ser mais do que sempre foi.
Esquerda: O Brasil pode ser um país com presença no Sul do mundo e um agente de paz em conflitos mundiais em outras regiões do mundo.
Direita: O Estado deve ser mínimo. Os bancos públicos devem ser privatizados, assim como as outras empresas estatais.
Esquerda: O Estado tem responsabilidades essenciais, na indução do crescimento econômico, nas políticas de direitos sociais, em investimentos estratégicos como infra-estrutura, estradas, habitação, saneamento básico, entre outros. Os bancos públicos têm um papel essencial nesses projetos.

Direita: O crescimento econômico é incompatível com controle da inflação. A economia não pode crescer mais do que 3% a ano, para não se correr o risco de inflação.
Direita: Os gastos com pobres não têm retorno, são inúteis socialmente, ineficientes economicamente.
Esquerda: Os gastos com políticos sociais dirigidas aos mais pobres afirmam direitos essenciais de cidadania para todos.

Direita: O Bolsa Família e outras políticas desse tipo são “assistencialismo”, que acostumam as pessoas a depender do Estado, a não ser auto suficientes.
Esquerda: O Bolsa Família e outras políticas desse tipo são essenciais, para construir uma sociedade de integração de todos aos direitos essenciais.

Direita: A reforma tributária deve ser feita para desonerar os setores empresariais e facilitar a produção e a exportação.
Esquerda: A reforma tributária deve obedecer o principio segundo o qual “quem tem mais, paga mais”, para redistribuir renda, com o Estado atuando mediante políticas sociais para diminuir as desigualdades produzidas pelo mercado.

Direita: Quanto menos impostos as pessoas pagarem, melhor. O Estado expropria recursos dos indivíduos e das empresas, que estariam melhor nas mãos destes. O Estado sustenta a burocratas ineficientes com esses recursos.
Esquerda: A tributação serve para afirmar direitos fundamentais das pessoas – como educação e saúde publica, habitação popular, saneamento básico, infra-estrutura, direitos culturais, transporte publico, estradas, etc. A grande maioria dos servidores públicos são professores, pessoal médico e outros, que atendem diretamente às pessoas que necessitam dos serviços públicos.

Direita: A liberdade de imprensa é essencial, ela consiste no direito dos órgãos de imprensa de publicar informações e opiniões, conforme seu livre arbítrio. Qualquer controle viola uma liberdade essencial da democracia.
Esquerda: A imprensa deve servir para formar democraticamente a opinião pública, em que todos tenham direitos iguais de expressar seus pontos de vista. Uma imprensa fundada em empresas privadas, financiadas pela publicidade das grandes empresas privadas, atende aos interesses delas, ainda mais se são empresas baseadas na propriedade de algumas famílias.

Direita: A Lei Pelé trouxe profissionalismo ao futebol e libertou os jogadores do poder dos clubes.
Esquerda: A Lei Pelé mercantilizou definitivamente o futebol, que agora está nas mãos dos grandes empresários privados, enquanto os clubes, que podem formar jogadores, que tem suas diretorias eleitas pelos sócios, estão quebrados financeiramente. A Lei Pelé representa o neoliberalismo no esporte.

Direita: O capitalismo é o sistema mais avançado que a humanidade construiu, todos os outros são retrocessos, estamos destinados a viver no capitalismo.
Esquerda: O capitalismo, como todo tipo de sociedade, é um sistema histórico, que teve começo e pode ter fim, como todos os outros. Está baseado na apropriação do trabalho alheio, promove o enriquecimento de uns às custas dos outros, tende à concentração de riqueza por um lado, à exclusão social por outro, e deve ser substituído por um tipo de sociedade que atenda às necessidades de todos.

Direita: Os blogs são irresponsáveis, a internet deve ser controlada, para garantir o monopólio da empresas de mídia já existentes. As chamadas rádios comunitárias são rádios piratas, que ferem as leis vigentes.
Esquerda: A democracia requer que se incentive os mais diferentes tipos de espaço de expressão da diversidade cultural e de opinião de todos, rompendo com os monopólios privados, que impedem a democratização da sociedade.

VOCÊ VAI VOTAR EM CANDIDATOS DE ESQUERDA OU DE DIREITA? O SEU CANDIDATO É DE ESQUERDA OU SÓ TEM DISCURSO DE ESQUERDA? ELE JÁ ESTEVE NO GOVERNO? SE ESTEVE, ESSE GOVERNO TINHA DECISÕES DE ESQUERDA OU DE DIREITA?

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