sexta-feira, 20 de março de 2009

Gratuidade, o tabu da universidade

Todas as instituições sociais têm seus tabus. Há assuntos incômodos, há temas polêmicos, e há aqueles que é melhor não tocar, como casa de marimbondo. Na universidade pública, o tabu é a gratuidade do ensino superior. As interdições dos tabus, por outro lado, não nos permitem pensar melhor sobre a vida nessas instituições, e precisam ser cutucados de vez em quando.
A gratuidade do ensino nas universidades públicas aparece como uma conquista republicana a garantir que todo cidadão que chegar à universidade possa cursá-la sem custos .
Entretanto, isso é mais um exemplo das políticas universalistas de caráter liberal que tratam a todos igualmente, e com isso reproduzem a desigualdade. Nos cursos mais concorridos principalmente, pessoas que estudaram em caras escolas particulares passam a receber educação gratuita, podendo redirecionar o investimento educacional que faziam antes. A gratuidade, nesse perfil, colabora com a concentração da renda e ajuda a tornar a universidade pública um instrumento de ampliação da desigualdade.Por outro lado, o aluno carente é obrigado a desistir do curso superior por não conseguir pagar as passagens de ônibus, o aluguel, ou simplesmente porque a família não pode dispensar a pequena renda que advém de seu trabalho.
Já passou da hora de recolocar o tabu da gratuidade total em discussão, porque alguma coisa que vem de um conceito republicano e democrático pode gerar, sim, na prática de uma sociedade brutalmente desigual, mais desigualdade.
É o momento de colocar em tela a idéia da gratuidade seletiva, ou seja, que o estado seja responsável por educação gratuita apenas para quem não tem condições de pagar, alguém para quem o pagamento de uma mensalidade ou anuidade inviabiliza o seu estudo. Os demais, para quem a gratuidade é apenas uma economia bem vinda, que pode fazer sobrar recursos para algum bem de consumo.
De certa forma, isso já é feito pelo PROUNI, do governo federal, que troca impostos de instituições privadas de ensino superior por vagas gratuitas para alunos que não poderiam custear seus estudos. Talvez seja a hora de ter um PROUNI ao contrário, cobrando nas universidades públicas de quem pode pagar, de acordo com a sua renda. Esse recurso, longe de possibilitar a diminuição do recurso estatal para a universidade - afinal sua excelência é muito cara para ser paga com mensalidades - poderia ser muito bem utilizado criando mecanismos para evitar a evasão e garantir o acesso e permanência de alunos de famílias de poucas posses. Isso sim produziria a democratização que a gratuidade pura e simples não tem sido capaz de garantir

domingo, 25 de janeiro de 2009

NAZI - ISRAEL?

Acabou a ofensiva israelense em Gaza, que aproveitou o vácuo de um Bush exaurido e um Obama ainda não empossado. Mais um crime contra a humanidade promovido por Israel, o principal representante dos ideais de limpeza étnica hoje. A vítima incorpora o carrasco.
A criação de condições insuportáveis de vida na Palestina faz parte do projeto de expulsão ou eliminação física de todos os palestinos, com o forte apoio dos lobbys evangélicos fundamentalistas e sionistas nos EUA.

Minha sugestão para quem quer conhecer melhor esse drama humano é o documentário Occupation 101, que pode ser assistido no Google Video (com legendas em português):

http://video.google.com/videosearch?q=occupation+101&emb=0&aq=f#emb=0&aq=f&q=occupation%20101%20legendado&src=3

terça-feira, 20 de janeiro de 2009

Sobre o primeiro ano com cota para negros na UEPG

Alguns dos principais dados:

- a procura dos negros pelo sistema é muito pequena, abaixo do que o piso da cota estabelece.

- a evasão dos cotistas negros é fabulosa, 25,6 % dos matriculados, contra algo como 10% nas outras cotas

- apesar de todas as dificuldades, a média dos cotistas negros (excluindo os desistentes) é muito parecida com a média geral dos cursos em que pelo menos um cotista negro está matriculado até o final do ano: 6,26 para os cotistas negros contra 6,38 da média geral. Desses cursos em que houve matrícula de cotistas negros e pelo menos um deles não desistiu (um total de 28 cursos), em 11 deles a média dos cotistas negros é superior à média geral do curso. Isso prova que o cotista negro é um aluno como qualquer outro, e que a idéia de que a cota para negros iria rebaixar a qualidade dos cursos da universidade mostrou-se apenas uma aposta contrária à promoção da igualdade racial através dessa política afirmativa.

domingo, 18 de janeiro de 2009

Relatório sobre o primeiro ano da política de cotas da UEPG

Publico aqui o link para o relatório sobre a política de cotas da UEPG em 2007. Eu presidi a comissão e mesmo não estando aprovado o mesmo, é público e importante!

http://br.geocities.com/lfcronos/RelatorioAvaliaCotasUEPGref2007.pdf

(Se não funcionar, copie o endereço e cole na barra de endereços do seu navegador. É preciso ter o Acrobat Reader instalado
Nas próximas postagens, discuto alguns dos resultados.

domingo, 11 de janeiro de 2009

SÓ SE VÊ NA GRÔBO!

A Grôbo vive se gabando do papel social que cumpre quando se trata de suas novelas e mini-séries: elas promoveriam debates sobre preconceito, educação, participação política, etc.
Ora, a Globo sempre faz isso tomando posição, obviamente, e multiplicando sua opinião. Que é partidária, no sentido de não ser consensual.
E isso é até compreensível porque a Globo é uma empresa que não tem a obrigação de representar o todo, a nação, e representa só seu interesse. Só que a massa de tontos que infesta o país acaba achando que a vênus platinada é a própria sociedade civil, ou a opinião pública encarnada.
Fosse assim, a foto da montanha de dinheiro que ela arranjou e publicou nas vesperas do primeiro turno da eleição presidencial de 2006 contra a campanha Lula teria colocado no poder o Alckmin.
O teorema é assim:
- O saudoso Brizola afirma que Globo é prejudicial ao desenvolvimento político do país porque manipula a opinião pública.
- A Globo elege o Collor, derruba o Collor, elege o FHC, abandona FHC, bajula o Lula, não ganha dinheiro para salvar seus investimentos em crise, tenta ajudar a derrubar o Lula ...
- A Globo concorda com a gente que interfere sobre a formação de opinião pública nacional nos seus comerciais. Lógico que não fala de política, mas de comportamento. Mas vale para a política, para o opinião sobre as questões educacionais, etc.
C.Q.D.

A concessão pública que permite que a TV exista gera uma força que não traz uma opinião pública, mas uma opinião partidária. A Globo (como a Record, ou o SBT, ou a Band... só que mais intensa e claramente que essas) é um partido político, cujo presidente e é o neocon Ali Khamel, diretor executivo da empresa.

Lembrei disso porque a Globo tomou posição quanto (e tornou hegemônica) à escolarização regular dos portadores de necessidades especiais, com a novela que tinha a Regina Duarte ("eu tenho medo") representando a mãe adotiva de uma menininha portadora de Síndrome de Down.
Trata-se de impor que se aceite a posição através de elementos afetivos usados na novela, não de promover a discussão sobre o tema, como a Vênus pensa que faz.



Mas isso é o que o professor Chomsky chama de "Natureza antidemocrática do capitalismo" (veja o artigo aqui)

LIBRAS nos cursos de licenciatura - por que não JIU-JITSU?

Alguém acha que tudo se resolve criando uma disciplina a mais para aquilo que lhes dá na telha. Na escola ou na universidade.
Tinha gente que achava que uma disciplina sobre drogas ia diminuir o consumo de drogas entre os universitários. Devem ter cheirado leite em pó! Que viagem!
Agora, as licenciaturas vão ter que integrar na sua grade de disciplinas a matéria de LIBRAS (Linguagem Brasileira de Sinais), de modo a preparar melhor os futuros professores para acolher condignamente os portadores de necessidades especiais.
É justo. É politicamente correto.
Mas como sempre, tudo o que vem de cima para baixo para ser executado por quem não foi consultado sobre a medida, é incompleto, e tem pouca chance de cumprir o objetivo declarado. Afinal nessas coisas sempre tem um objetivo declarado e um objetivo subjacente. Nesse caso, acho que o subjacente é a necessidade de dar resposta aos grupos de pressão em defesa dos portadores de necessidades especiais, por parte do poder público. A resposta tá dada, e uns outros pensam que projeto é solução.
Essa idéia já é antiga, mas vale a pena retomar: o professor tem cada vez mais tarefas e obrigações, e cada vez menos condições de trabalho. Atender aos portadores de necessidades especiais é mais uma dessas situações. Estudar libras é um arremedo de solução, válida mas insuficiente, e que pode ser completamente perdida porque ninguém se lembrou de convencer os professores de que essa saída é a mais adequada para a educação dos p.n.e. Parece-me que esse debate ficou na Pedagogia e não recebeu ação ou atenção nas demais licenciaturas.
O professor nesse quadro é executor.
Se houvesse efetiva preocupação com ele na resolução dos problemas de sala de aula, o currículo das licenciaturas deveria incluir mais duas cadeiras:
- Teoria e prática do enfrentamento da agressão verbal.
- Defesa pessoal I (agressões desarmadas), II (agressões com arma branca) e III (agressões com arma de fogo).
Ser professor vai deixando de ser uma habilidade intelectual e tornando-se uma habilidade física:

segunda-feira, 15 de dezembro de 2008

Reprovação, punição e recompensa

Vivemos um tempo que que se superou, na escola, o recurso à reprovação. Ótimo. Vivemos um tempo em que a indisciplina na escola tem poucos precedentes no passado, o que inclui a banalização da violência contra o professor. No meu ponto de vista, as duas coisas estão ligadas.
Com a retirada do poder de punição que o professor dispunha através da reprovação, parte importante da sua autoridade também foi retirada. Isso não democratizou a escola, porque democracia não é ausência de ordem (embora não seja qualquer ordem que vá significar democracia). A apatia é generalizada, em parte porque tanto faz se o aluno estuda ou não, se o professor ensina bem ou não. O resultado é essencialmente o mesmo.
Escreveu-se em nome da democracia, um novo capítulo da filhocracia, que precisa ser repensado. Retirando-se a punição, retira-se a recompensa. Estimula-se a contravenção, já que os valores não são claros ou conseqüentes, e isso transborda para a sociedade.
A recompensa deve ser dar menos tempo de aula para quem vai bem, encerrando o período letivo mais cedo para estes, mantendo-o para os demais, com tratamento especializado, por mais tempo. E reprovando, sim, quem não mostra disposição de aprender, pois esses desafiam - não só com a atitude, mas com seu exemplo - o sistema que sustenta a idéia de que é preciso esforçar-se e aprender. Estou falando do "vagabundo", não de quem tem dificuldades de aprendizagem, e o professor minimamente experiente logo distingüe um do outro. COm essa medida, o aluno esforçado é premiado, o aluno relapso é punido, a reprovação é último recurso e quem tem dificuldades de aprender.
Se os pais dos alunos não podem ter os filhos em casa antes do tempo, se cabe ao Estado mantê-los na escola, nada mais certo que ampliar o corpo docente contratando professores que possam orientar leitura, promover lazer e atividade físicas, criar oportunidades de criação e fruição de manifestações culturais em geral.
É isso mesmo, educação de qualidade não se resolve com boa vontade: custa caro mesmo!

Seguidores